quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Entrevista com Otávio Donasci (05/08/09)

No que você dá ênfase em seu processo criativo?
“[...] Em geral ele surge, no meu caso, do equipamento. Por exemplo: Eu olho algum tipo de procedimento, algum tipo de modo de fazer que gera resultado. Então eu vejo uma coisa que gera faísca, eu vejo uma coisa que gera movimento, eu vejo um aparelho que solta imagem, que faz imagem. Estes procedimentos, esses processos, aparelhos, essas ferramentas... elas me dão embuti de criar. È como se fosse me mostrasse: Olha, se eu posso fazer faísca, que tal eu fazer um boneco de faíscas? Eu vou fazer uma coisa chamada associação dispare, é um modo de você criar ou uma coisa típica de quem cria, no meu caso eu prefiro pensar que é uma técnica, é uma característica. Eu faço isso desde criança, eu pegava lata de óleo e transformava em escavadeira... para mim lixo era uma coisa maravilhosa, com o que jogava no lixo eu brincava. Ou seja, eu já estava preparado para esse conceito de que não existe lixo, lixo é uma coisa que serve para muita coisa. Ele não é inútil, que é o caso do lixo. O conceito de transformar para mim era libertador, porque as coisas custam caro, no meu tempo menos... agora mais. O acesso hoje às coisas é pelo dinheiro, no meu tempo o acesso às coisas era pela criatividade. Você tinha coisas que estavam a sua disposição e coisas que custavam caro, as que custavam caro eu já eliminava logo de cara, pois eu não tinha dinheiro para isso, então eu começava a trabalhar sempre com as coisas que estavam na mão, e transformava. A coisa serve para isso. Aí eu falava assim: ¨Mas e de cabeça para baixo?¨[...] Brincar, a palavra brincar com as coisas vem primeiro, quando você é criança. Depois eu comecei a brincar com os procedimentos, com as ferramentas. Eu adorava ir em uma loja, em uma rua super técnica na Av. Florêncio de Abreu, ver máquinas que quando batem elas dobram uma chama de aço, aí eu falava ¨poxa, o que eu dá para fazer com isso? Dá para fazer isso...¨, eu pensava em coisas reais, fazer coisas para construir. Eu ficava pensando que eu podia também pegar, tirar daqui e por pra cá, tirar de cá e por para lá... ficava fazendo associações malucas. Baseado em humor mesmo, foi assim que eu comecei, eu já desenhava humor então eu fui fazer coisas humorísticas, misturar coisas humorísticas. Então, tanto meu trabalho videocriaturas tem esse componente “traquitana”, de você fazer uma criação a partir de lixo: O que era uma televisão preto e branco? Era o televisor mais simples que tinha, era o televisor da empregada antigamente, no quarto da empregada tinha um televisor preto e branco com “bombril” na antena vendo novela e o da sala era o colorido. O pequenininho, de 12 polegadas, era o do mecânico, do cara que trabalhava na portaria do prédio. A loja já sabia disso e vendia ele mais barato, podendo comprar mais barato eu podia me dar ao luxo de desmontar e quebrar. Porque eu não podia, como um menino pobre, pegar um televisor. O que hoje seria pegar um plasma de 150 polegadas e tirar a casca dele, ver o que acontece se você jogar água, se você meter uma tesoura, dar um furo nele. O que seria bom pesquisar para ver o que acontece ou até fazer uma performance. Só que é uma performance que custa quanto? Vinte mil reais um aparelho.
Tanto eu poderia dizer que hoje, o aparelho que eu usei pra fazer, um plasma – o primeiro que saiu – ele custava dez mil dólares e hoje ele custa mil reais. A obsolescência é muito rápida, isso não faz dez anos. O cristal líquido é caro aqui no Brasil, lá fora já tem varias coisas. Eu fico esperando aquilo “cair no meu quintal”, virar de algum modo algo tão comum, que a industria venda muito ou não aposte nela, tire tudo o que der dela. Tanto que hoje já estão queimando os plasmas. Quando a tevê LCD apareceu, os plasmas antigos – aqueles que só tem 750 linhas – estão vendendo a qualquer preço. [...] Vem o novo, que é bem melhor só que custa o dobro. Tem o plasma que o cara vende a mil reais e tem o New Plasma que custa seis mil reais.[...] Alguma coisa vira obsoleta muito rápida. Hoje em dia, fica mais fácil para mim, pegar alguma coisa na área de informática/ digital. Me lembro que na minha época o HD custava caríssimo, e o HD você simplesmente nem acha mais. Passou daquela época, você fala ¨quero um HD de 6 Gigas¨, não existe. Agora o mais barato que se tem é um de 250 Gigas.
[...] A minha referência é a arte de Nam June Paik, eu não estudei ele, mas eles me colocam Paik como um parente próximo, meu ancestral. O Paik fez uma série de coisas ligadas à “traquitanas” e quase que fez criaturas, mas só instalação. Eu sou o elo pra cima do Paik, um ponto pra cima, ele chegou a fazer acessórios para usar no corpo mas não pra por em pessoas, pessoas independentes. Eram pessoas usando acessório, só acrescentando e não funcionalmente. Ele botou lá um par de seios/imagens na Charlotte Mormann, fez um violoncelo feito de vídeo [...].”

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